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Amor Ateu

Posted by Eduardo Gomes



A fumaça do cigarro subia em preto e branco. Com um branco intransponível de neblina, esgueirava-se pelos lábios e subia para ganhar o contorno daquele rosto indecifrável, para logo depois se desfazer.

O conhaque na mão direita, se não fosse pelas duas pedras de gelo quase derretidas, estaria incólume. Aquele copo, de uma sequencia já esquecida, não estaria fadado à sede das doses anteriores.

As cinzas caíam sobre o assoalho revestido de madeira. O vermelho do cigarro ao ser tragado era a única luz daquele lado do salão. As paredes em pedras rústicas e lareira apagadas, tudo jazia em paz naquela penumbra.

A poltrona apontava para o mesmo lugar dos olhos em parcimônia. À frente deles, uma porta aberta era velada pelo silêncio. Estava a espera, mas não tinha certeza de quem.

O tempo era o solitário transeunte daquela porta. Envelhecer era o único movimento feito bruscamente. A passagem destoava do resto do ambiente, talvez à espera de alguém fechá-la. Incomodava, mas o olhar não tinha outro destino. Acreditava.

O cigarro caíra, e uma vibração se fez no conhaque quando uma silhueta aparecera rente à passagem. Seria ela? Por todo esse tempo, sem perder um momento da sua ausência, estaria a ver uma miragem? Respirou fundo, piscou, e percebeu: era só mais um inverno que chegara.

Amor ateu é aquele que você acreditou nunca existir, e por assim ser, continuará a inexistir.

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