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Epílogo

Posted by Eduardo Gomes




Pela primeira vez, o símbolo de uma porta aberta significou a derrota. Sem a maçaneta para girar, o inesperado não me reservava mais surpresas. Fiz do sussurro uma escotilha, mas a luz te escondeu de mim.

Os lábios umedeceram procurando novamente o ‘mas’, seguido de apelos infundados. Eles ainda relutaram em aceitar os termos de rendição, porém num arremate silencioso selaram essa história sem começo.

À noite, os olhos vestiram as lágrimas reservadas para aquele momento. Dessa vez as mãos apenas fecharam-se em torno de si, numa solidão mórbida. Já não havia mais nada para alcançar com as pontas dos dedos!

Os passos repousavam derrotados, não precisavam andar em círculos procurando uma entrada, pois a porta aberta mantinha-os à distância. Vencidos pela transparência, os pés estavam no encalço das sombras novamente, longe de tudo.

Somente a pele – que eriça desejo ao toque dela – ainda mantém viva a esperança de um último afago. Porém, igual a uma viúva de um marinheiro náufrago, resta-lhe olhar para o vazio do horizonte.

O Quereres

Posted by Eduardo Gomes





As palavras são ditas trêmulas, arranham a garganta sem vontade de sair, mas acabam por trair o querer. Os olhos mantêm-se fiéis ao desejo, eles podem até mudar de cor ao entardecer, mas eles denunciam onde a boca deveria pairar.
Meus beijos anseiam pelo seu batom, mas são as minhas mãos que saem em disparada à procura do teu corpo. Tenho a licença poética de emaranhar os meus braços em sua cintura e te trazer junto a mim.
Da mesma gentileza que uma dama é conduzida numa dança de corte em tempos medievais, meus dedos entrelaçados nos cabelos de sua nuca trouxeram seu rosto para junto do meu. Agora as palavras de negação já estavam sem eficácia, havia apenas o breve silêncio que antecede o estardalhaço de um beijo desejado.
A sensação foi tão sinestésica, que seria injusto resumi-la a ‘um beijo’. Dois corpos movendo-se em uníssono, dando seus primeiros passos num sincronia ímpar. Uma dança que não havíamos ensaiado, mas cada movimento meu tinha uma resposta pronta.
O escarlate de seus lábios havia batido em retirada, assim como o resto de suas defesas. A palma da minha mão transformara-se no repouso da satisfação do seu rosto. Sua mão estava sobre o meu peito e tentava equalizar nossas disritmias.
Apesar de todas as nossas diferenças, e das escolhas destoarem com uma nitidez ruidosa, não foi difícil desvendar que os pares de olhos são da mesma cor quando se fecham.

Cama Nova

Posted by Eduardo Gomes




A cama é como um livro em branco esperando as histórias formarem-se sobre si. Para escrever são precisos (pelo menos) dois corpos e nenhuma borracha. Os capítulos ardentes geralmente precedem os monótonos. As linhas podem seguir seu comum caminho horizontal, virarem-se na vertical, ou até mesmo fazerem um laço.
Pela manhã, as dobras dos lençóis se reajustam, o travesseiro encontra o caminho de volta para a cabeceira, e os pés alinham-se novamente à posição da noite anterior. Quando a luz, finalmente, entra pela janela encontra o cenário impecável, como se a página houvesse sido virada e à espera dos braços e pernas.
 Incautos podem pensar que a cama voltou ao seu estado original, mas as memórias deitam-se indeléveis na memória. As quatro testemunhas permanentes, em seu retângulo imóvel, calam os gemidos abafados, deixam escapar os gritos escancarados e espreitam o suspiro arrefecido pelo calor dos corpos.
O brinco que caiu páginas atrás continua lá como uma leviana sugestão do que acontecera. O lençol leva embora as gotas de vinho, os verdadeiros e os falsos orgasmos. Só para não acumular com os pequenos pedaços de unhas que as costas insistem em arrancar, ou com batom que escapa aos beijos e encontra o edredom.
A cama é confidente e deseja junto. Ela te expulsa por várias madrugas em claro à procura de quem lhe apetece. O vazio por onde seu braço se estende pergunta: onde ela está? Sem um par, o suspiro é gris e vem do pesar por não escrever.