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Sábado à Noite

Posted by Eduardo Gomes




O salto de tão alto, esqueceu de lhe descer. A autoestima subiu junto com o calcanhar. Sentir os pés no chão não era uma alternativa nas próximas horas.

Dores incômodas são ligeiramente esquecidas quando a linha do horizonte é vista de cima. Somente as pontas dos dedos rentes ao solo não a deixam esquecer por onde pode pisar.

O símbolo do infinito tatuado em seu punho esquerdo está pontilhado só para lembrar que a vida é curta. A certeza dos seus passos faz o acaso recuar; e deixa as mãos livres para alcançar o que deseja.

O batom pega carona nos seus lábios na tentativa de ser notado. Frustrado, perde espaço quando os dentes encontram a própria carne e denunciam desejo. O vermelho, ainda vivo, arranca olhares quando desenhado em outras faces, ou borrado em outras bocas.

Os fios loiros ondulados lhe roubam um pouco da visão, mas seus dedos lançam-nos para trás. Uma jogada ensaiada para disfarçar suas intenções.

A malícia despontada num sorriso desce pelo corpo e põem em movimento o cruzar das pernas torneadas. Ela caminha vagarosamente para que os desavisados, em vão, tentem se achar em suas curvas. 

O vestido preto lhe abraçava o corpo e um rastro de insinuosas vontades jazia evidente por entre as mesas. Perder-lhe de vista tiravam os pescoços virados do caminho.

Os castanhos dos seus olhos parecem terem sido furtados numa noite quente. Tão inquietos percorrem outros pares por alguns segundos. Enfim, dois de igual intensidade lhe seguram no ar.

Quando chega ao seu destino, o olhar que a atraíra já estava a se render. Depois de um beijo incontido, afasta-se e deixa para trás parte de seu batom misturado a doces ilusões.

O pontilhar de sua tatuagem lembrou-lhe que sua partida estava atrasada. Desatou-se em disparada, deixando a noite para trás. Não cabia mais ninguém em seu infinito particular. 

Esconderijo

Posted by Eduardo Gomes



As palavras iam saindo da boca e recheando a mesa com histórias engraçadas e contos mirabolantes. Todas eram saboreadas rapidamente pelos sorrisos fáceis das minhas companhias.

Num movimento quase imperceptível, um vendedor de redes chega ao lado disposto a nos fazer descansar. Recusei o produto que parecia mais tentador depois da refeição.

Aquele senhor tinha a pele calejada pelo árduo trabalho. As cicatrizes naturais do tempo não lhe deixavam aparentar menos de 60 anos. Não tinha o ressentimento de fim de vida que a muitos acompanha. Pelo contrário, o contentamento era singular e sem motivo aparente.

 Antes mesmo do sorriso daquele velho homem esmorecer com a resposta negativa, apontou para minha mão. Absorto, demorei para entender, e então mostrei-lhe a palma.

Num golpe seco como aquela tarde, recebo as palavras ditas pelo velho homem: – ‘Você tem um amor secreto’. Disse ele, como se estivesse a vender um emaranhado de tecidos.

Intrigado, retribui uma face surpresa e recebi o mesmo sorriso indecifrável. Perscrutei a neblina mórbida da minha densa imaginação. Poderia esconder algo de mim mesmo?

Num instante clarividente e antes de embalar os pensamentos, as redes já estavam sendo vendidas na próxima mesa. Eu sabia que era tarde demais.

Para sempre

Posted by Eduardo Gomes






Não sei quantas primaveras passarão, se o inverno realmente está para chegar como dizem nos livros. Ou se o verão nos permitirá sorrir, depois que as folhas amarelas e secas do outono partirem.

Mas eu sei que meus dedos estarão a entrelaçar os seus quando as pétalas caírem; e te acordarei quando as flores desabrocharem. Os braços emaranhar-se-ão aos seus quando o frio chegar e te embalarão no ar quando as nuvens forem apenas coadjuvantes do sol.

Cadenciados pela pressa cotidiana, nossos pés trilharão compassados os mesmos caminhos. Ao final de cada jornada diária, eles estarão sobrepostos em descanso ou num eterno enamorar.

Quando sente sua falta, minha voz ecoa seu nome pelos corredores e sonha encontrar uma breve resposta que acalente os ouvidos. Os olhos procuram inquietamente os meios para chegar até você, mas eles se fazem em serenidade quando encontram os seus pares.

Dar de ombros para um pôr do sol ímpar. Ignorar a cor da lua e deixar a suspensão das estrelas apenas num vácuo de existência. Momentos de insensatez se eu não estivesse a te fazer feliz.

O tempo pode transitar por nossas vidas quantas vezes quiser, mas estarei ocupado demais te fazendo sorrir e não notaremos que o "para sempre" já começou. AMO-TE Petite!

Queda Livre

Posted by Eduardo Gomes




O parapeito da janela, ao que parecia, tinha a largura ligeiramente menor que os meus pés. O cimento de que fora feito produzia leves arranhões nos pés descalços, nada que pudesse ser esquecido com alguns minutos.

O vento batia na cara sem chances de me nocautear. O sol, quase a se por, despedia-se também.  Os batimentos cardíacos, que deveriam se desesperar, estavam dispersos em sua rotina.

Sem mais delongas, saltei. Uma queda livre para o coração sair do seu ritmo monótono, e para os olhos começarem a deixar óbvio em pontos cegos. Na vidraça do prédio em frente, a vida passava de cabeça pra baixo, e agora, tudo fazia sentido.

Mais alguns segundos para encontrar o destino, e depois de um turbilhão de pensamentos, um vazio acalentador. Depois de tanto pensar em saídas para os problemas, eis que me deparei com as entradas. Seria tarde demais para voltar?

Muitas vezes olhamos para as adversidades, e pensamos que o abismo é muito íngreme e damos meia volta. É preciso pular e aceitar os riscos. O medo e as incertezas, quando enfrentadas, fazem com que nos sintamos vivos.