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INTERDIT

Posted by Eduardo Gomes



O Proibido sempre foi atraente. Mesmo quando pequeno, tinha um discurso encantador, palavras soavam a espera de um momento de distração para lhe convencer. Ao correr do tempo, ele muda, mas sempre está lá, em algum lugar escondido, irrequieto, pronto para ser desvendado.
Aprendi a olhar o Proibido pela janela todos os dias. Confesso: era meu vício perceber suas promessas a uma distância segura. Eu nunca te convidei para entrar, mas você encontrou a porta entre aberta e levianamente deixou-se ficar.
Não tive forças para te expulsar, será que eu queria te tirar dali? Sentamos no sofá, meus olhos fixavam o assoalho de madeira, o receio de descobrir a cor dos seus olhos me eriçava a pele.
Mordi os lábios para evitar a fuga de palavras que me arrancaria a máscara. Comecei a perceber que o Proibido também era impaciente ao passo que se aproximava. Ele agora exigia pressa, bateu na mesa e expôs desejos pelo tapete.
Ele nunca esteve tão perto. Não podia mais colocá-lo de volta a vista da janela. Querer-te não era mais uma questão de controle, era necessidade. Roubei-lhe para meus braços e nunca me senti tão vulneravelmente completo.

          Na manhã seguinte, você ainda estava perto, não me prendia mais. Dei alguns passos amargos em direção à janela e novamente a vista tornara-se atraente.

PARMI

Posted by Eduardo Gomes


Entre os meus lábios estão escondidas as palavras sussurradas ao calar da noite. Elas descem pelo travesseiro, ecoam no quarto escuro como um mantra, repousam entre os lençóis e deixam claro o vazio do teu lugar.
O desejo de te encontrar percorre as ruas vazias na madrugada, e se perde entre uma esquina e outra. Nas calçadas, viam-se as marcas dos passos que rumavam em direção a sua ausência.
A tempestade açoitava-lhe o rosto; as roupas pesavam mais que o próprio corpo e o vento insistia em negar-lhe passagem. O cansaço preenchia o silêncio entre os seus passos e lhe tirava o fôlego.
A maçaneta girou demoradamente hesitante, meus olhos miravam a expectativa que se esgueirava pelo chão. A porta revelou a luz que desenhou sua silhueta suspensa no ar.
         Você continuava imóvel, a se perguntar se deveria estar ali. Por entre os seus dedos escorria mais do que água, deixava escapar a dúvida que lhe dividia entre voltar atrás e dar mais um passo. Sussurrei pausadamente a única palavra que poderia te alcançar: Entre...

MIROIR

Posted by Eduardo Gomes


Costas contra a parede, pressionadas por uma respiração ofegante. O calor pesava demais para que as minhas mãos pudessem evitar sua fuga desesperada entre os dedos. A inquietude dos meus pés marchava num ritmo ansioso, como se estivesse procurando algo mais firme.
Ao adentrar nesse labirinto, apenas olhei para as flores ao chão e esqueci de tocar as paredes de dor e angústia que sustentavam a leveza do seu ser. Agora cheguei até aqui, onde não queria estar, onde seus segredos repousavam serenos, escondidos da luz.
 Você me encurralou nesse canto. A sua face estava tão próxima que pude enxergar o seu lânguido rosto atrás da máscara. O vazio profundo dos seus olhos parecia um abismo a absorver tudo ao seu alcance; eles eram a janela por onde sua alma havia escapado.
Teus lábios selados regiam o tom do silencio. Imóveis, como duas portas que há muito tempo não se abriam, estavam na iminência permanente da sua voz bradar um grito de dor. Um suspense quebrado pela lágrima a escorrer pelo seu olho esquerdo desenhava no rosto uma linha que não poderia ultrapassar.
Não sentia mais medo quando a única lágrima pendia em seu queixo, prestes a cair. Antes de estender a mão na tentativa de ampará-la, notei que as marcas de solidão por debaixo da maquiagem de conversas vazias também me eram comum. Num susto, recuei minha mão, toquei o meu próprio rosto e percebi que estava umedecido pela lágrima que agora caía ao solo.

Pensei que me conhecia até encontrar-me perdido no espelho da minha consciência. Reflita.     

EXPECTATIVE

Posted by Eduardo Gomes


As mãos se aqueciam com a insegurança da respiração descompassada.  Os pés tocavam a madeira áspera daquele chão enrijecido pelo frio. A sala jazia num silêncio mórbido, enquanto os passos tímidos percorriam o espaço numa vã procura de outros pares.
Quase tocando o teto, insurgia-se rente aos meus olhos ainda cerrados, uma porta imponente e rústica. A maçaneta de cobre me convidava para um aperto de mão. A paciência inanimada daquela gigante de madeira desafiava-me a atravessá-la.
As gotas de suor encharcavam a testa com uma incerteza gélida. Ao mesmo tempo os pelos eriçavam-me com uma curiosidade inquietante.
A expectativa rompe as amarras das dúvidas que emperravam a porta e permite-nos girar a maçaneta. E ao tatearmos o que se esconde atrás dos nossos receios, descobrimos que nem sempre encontramos um pedaço de espelho.
A imaginação alimentada pela expectativa nunca coube na realidade. Sem essa ansiedade corada de desejos, o que nos resta? Seríamos felizes com nada a esperar para sermos surpreendidos com o palpável?

A realidade limita-se ao alcance da pele. Para ver... temos que abrir a porta.