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Amor Ateu

Posted by Eduardo Gomes



A fumaça do cigarro subia em preto e branco. Com um branco intransponível de neblina, esgueirava-se pelos lábios e subia para ganhar o contorno daquele rosto indecifrável, para logo depois se desfazer.

O conhaque na mão direita, se não fosse pelas duas pedras de gelo quase derretidas, estaria incólume. Aquele copo, de uma sequencia já esquecida, não estaria fadado à sede das doses anteriores.

As cinzas caíam sobre o assoalho revestido de madeira. O vermelho do cigarro ao ser tragado era a única luz daquele lado do salão. As paredes em pedras rústicas e lareira apagadas, tudo jazia em paz naquela penumbra.

A poltrona apontava para o mesmo lugar dos olhos em parcimônia. À frente deles, uma porta aberta era velada pelo silêncio. Estava a espera, mas não tinha certeza de quem.

O tempo era o solitário transeunte daquela porta. Envelhecer era o único movimento feito bruscamente. A passagem destoava do resto do ambiente, talvez à espera de alguém fechá-la. Incomodava, mas o olhar não tinha outro destino. Acreditava.

O cigarro caíra, e uma vibração se fez no conhaque quando uma silhueta aparecera rente à passagem. Seria ela? Por todo esse tempo, sem perder um momento da sua ausência, estaria a ver uma miragem? Respirou fundo, piscou, e percebeu: era só mais um inverno que chegara.

Amor ateu é aquele que você acreditou nunca existir, e por assim ser, continuará a inexistir.

Imobilizado

Posted by Eduardo Gomes




O tilintar das correntes precede ao ruído opaco dos passos, é impossível enganá-las. Elas estão ali, ora presas aos pulsos, ora aos pés. Livres o suficiente para girar o punho, as mãos escrevem pedidos de socorros, gritos por ajuda no papel, tão altos que o rasgam, mas ninguém ouve.

O som dos metais enferrujados acompanha o desdobrar de bons sonhos para findá-los em seu momento mais sublime. Em outras oportunidades, silenciam para que pesadelos soem mais altos em noites sólidas e inquietantes.

Os pensamentos continuam a acender e produzir calor, mas o abismo insiste em devolver o olhar. Envolto na escuridão, fecho os olhos e permito que a respiração me faça companhia. Penso em dar um passo à frente, mas aquelas malditas as correntes continuam à espreita.

Enfim, a saída foi acordar. Sentei à beira da cama e finquei os pés no chão. Acendi a lanterna do celular e a escuridão não era impenetrável. Respirei aliviado. Foi só um maldito pesadelo, confessei para o quarto.

Levantei em direção à porta, com a mão estendida, e antes de chegar à maçaneta, um tilintar...

Finita Reticência

Posted by Eduardo Gomes


Morrer na serenidade do sono significa: perder o momento em que a vida passa perante os olhos, justo naquela fração de segundo que antecede o fim.  Seria impassível e escuro?

Seria injusto partir da vida sem ter a chance de presenciar a mais rara e bela aurora boreal. Parecido com uma máquina do tempo em velocidade impar, sentir todas as emoções e lembranças de tantos anos no movimento final das pálpebras.

E se a vida não saiu como planejado?  Desfalecer dormindo num belo sonho não seria cruel. Uma ilusão real, na qual o suor desce pelo rosto quente enquanto corre pelo quintal de uma casa campestre. Bucólico ou não, a miragem pode ser reconfortante.

Sentir a vida esvaindo-se pelos poros, as mágoas e alegrias escorrendo pelos dedos. Nada mais importa. Todo encontro tem sua despedida, e as reticências só pertencem aos textos...

Fim do dia

Posted by Eduardo Gomes


Cansadamente fala sobre o seu desimportante dia para ouvidos desatentos.
Cansada mente rastejou para formular pensamentos com sentido.
Cansada, mente para abreviar o diálogo para apenas olhar.
Cansa da mente também, não consegue continuar.
Cansa, mente e segue para a cama.
Cansa finalmente.

Descansa.

Escafandro de segredos

Posted by Eduardo Gomes



O Segredo é personalíssimo. Se você o compartilha, ele perde sua essência e transforma-se num elo de intimidade com outra pessoa.  Segredo não se conta, ele se esconde, inclusive, atrás de boas verdades.

A palavra pensada e não dita. A mensagem escrita e nunca enviada. O ato oculto e infame. O silenciar é o que lhe consiste. Por vezes, o segredo passa diante dos seus olhos, faz-te suar frio, mas somente você pode vê-lo e tocá-lo.

O segredo é egoísta com seus dias de altruísmo. Ele pode ter seus momentos carnais em forma de desejos ou memórias. Ao travesseiro resta escutar os murmúrios, a respiração ofegante ou os suspiros de saudade.

Ele pode surgir com um trauma, e ser dolorosamente compartilhado com a consciência dia após dia. O escafandro no fundo do esquecimento pode ser uma alternativa para o segredo repousar.

Eles estão ligados a algum sentimento e a razão é o pano que os esconde. Você já desejou não ter contado alguns, e outros nunca serão descobertos.

Certos segredos podem ser sacrificados para construírem uma forte relação de confiança. Outros podem manter seu silêncio e servir de deleite ao final do dia.


Depois...

Posted by Eduardo Gomes



Ah, depois de tantas tentativas frustradas de escrever essa mensagem, eu parei. Eu precisava colocar em palavras o que sinto, além de um breve Eu te amo. Rabiscos tinham sido feitos, folhas foram amassadas, frases ficaram pelo caminho, apenas meias-palavras saíram pela cabeça. Fiz o que meu antigo pseudônimo sempre sugeriu: Pensei.

Depois de dois anos, não há uma resposta clarividente para tecer nesse texto. O primeiro dia na faculdade apresentou-nos por coincidência, e despretensiosamente (ou não) resolvemos este acaso, retirando-lhe a letra A. Um breve contratempo para nós que temos o resto da vida para continuarmos um ao outro.

Depois de um princípio conturbado, com tantas dúvidas, discussões, afastamento e reaproximações, sinto que o calor do primeiro beijo ainda me denuncia. Foi aquele beijo roubado que me fez sentir em casa, me fez sentir, me fez...

Depois de acertos, surpresas, flores, chocolates; depois de músicas declarações, poemas e obviamente beijos; depois das carícias, dos cachos desmanchados, da pele suada e depois de nos amarmos; hoje, as lágrimas só podem escorrer dos sorrisos.

Nesta data, e em todas as outras que marcam a nossa eternidade, convido-lhe a deixar o tempo passar. O prego pode se livrar do peso do relógio, pois já chegamos um ao outro. Não há mais nada, a não ser deixar todos para depois... 

DIAS CINZENTOS.

Posted by Eduardo Gomes







Em dias nublados, o vento costuma soprar as mágoas escondidas atrás dos olhos. Logo, elas descobrem que a superfície do rosto parece tão sereno quanto um campo vasto, e nenhuma mais aceita a prisão apertada da garganta.

Nesses vãos, as nuvens impedem que o termômetro marque os mesmos graus rotineiros, faz com que as ausências sejam acentuadas. Os apertos de mãos e sorrisos padrões tornam-se péssimas ilustrações de um livro de boas maneiras.

Quando, finalmente, a noite chega para lhe tirar as amarras em formas de ponteiro, você percebe que a solidão vem lhe acompanhar. Ela jaz em sua frente, única testemunha dos seus lamentos, e fica ali, a cortar madrugada e ater-se a seu corpo para lhe proteger de qualquer companhia.
     
  Em dias cinzentos, as pálpebras pesadas selam o dia muito depois do seu fim. Talvez, esperando que o calor retorne no romper da manhã e empurre de volta as lágrimas para debaixo dos cílios úmidos.