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Le Temps

Posted by Eduardo Gomes

Le Temps

Olhando o horizonte, sentado à beira da praia, um sol macio deixa marcas na areia da ampulheta, marcando mais um “X” no calendário. A noite esconde o que sobrou do dia, fecha-nos os olhos mesmo que as pálpebras estejam engessadas com o peso da insônia.
            Passamos os meses esperando o ano acabar, as semanas passam a espera do mês findar; os dias caminham em direção aos finais de semana; as horas dão voltas para zerar o relógio dia-após-dia; 60 são os passos que os minutos dão religiosamente durante 24 vezes por dia; e os segundos correm desesperadamente para fechar o ciclo e te fazer atrasar.
Presos neste ciclo, o tempo empurra-nos pelas costas para corremos atrás dele, por vezes amarra-nos no seu encalço e como uma criança de birra, insiste em não passar, nem passear. Em noites frias, ele passa na surdina pelo nosso quarto, e quando acordamos percebemos que ele há muito tempo já passou.
Muitas vezes só estamos à espera: de uma atitude alheia; de algo que nos faça sentir bem; de alguém que não conhecemos ou simplesmente à espera do tempo que virá.
 Esperar é um complemento subliminar para o verbo faltar, que nunca será preenchido se continuar a esperar que nossa vontade nasça com o raiar do sol da próxima segunda-feira.

VAGUE

Posted by Eduardo Gomes

Alguém, um dia, jurou ser o tempo imbatível.

Foi um dia comum, pelo menos era para ser. Eu estava tão acostumado a ficar nos seus braços, aninhar minha cabeça em seu peito e sentir os problemas e preocupações esvaindo-se daquele afago para fora.  Sua voz acalanta-nos a alma, e nos deixa em paz. Seus olhos expurgava toda a raiva que sentia por algum momento e fazia sentir-me envergonhado por isso.
Ah Luiza, por que fostes embora tão cedo?  Ainda sinto falta das tuas mãos calejadas batendo na minha de brincadeira, só para mostrar suas marcas e orgulhar-se delas, de ter vivido o suficiente para poder me ensinar. Lições que eu nem sempre aprendia nas primeiras aulas, mas que sua paciência me indicava o caminho que precisava percorrer.
As vezes conseguia  seguir seus passos lentos logo as 5h da manhã. Aprendi a acordar cedo e te ver fazer o café  (meu vício particular até hoje) ou debulhar o feijão que estaria servido no almoço depois que eu chegasse da escola.  Nos finais de semana, colocava-lhe Coca-Cola na caneca, as vezes do meu próprio copo.
Luiza, meu amor por você venceu o tempo num jogo de memória infindável. O tempo já não é o mesmo, não conseguiu arrancar-lhe de minhas lembranças.  O esquecimento me fez perder dentro da gaveta a data de sua partida, mas na cabeceira, sob a luz fúnebre do abajur, sempre fica exposta a dor que ficou no lugar da sua ausência.
Sua religião era a minha, sua fé era a minha, mas eu não quis crer quando dizias: “não te verei formado!” ou quando profetizava “ele dará muito orgulho aos pais, pode confiar”. Mesmo assim, sentava diariamente na cama e depois de rezar o Pai Nosso, Ave Maria e Credo, pedia a deus que ela estivesse na primeira cadeira quando eu recebesse o diploma.
Lembro que naquele dia choveu, as 5h da manha você não estava na cozinha. Procurei-te no sofá onde sempre me jogava em teus braços a ninar. Foi como se alguém tivesse te sequestrado. E de fato assim foi, o tempo te roubava no meio da noite, na surdina.
 Teus braços eram mais do que um abrigo, eram meu lar. Queria acreditar que um dia vamos nos encontrar novamente, mas confesso que desde que fostes embora, nunca mais tive pedidos que valessem apena juntar as mãos antes de dormir.
O papel encharcado me lembrou porque nunca conseguia escrever nada sobre você, mas precisava te agradecer por tudo Luiza Vieira Gomes, ou como simplesmente te chamava: vó.

Um dia, jurei ser o meu amor por você inesquecível.

FAUTE

Posted by Eduardo Gomes

Sinto uma estranha necessidade de culpar. Preciso apontar meu austero indicador para aqueles que fizeram não dar certo. Preciso culpar a vida quando não há ninguém para justificar o fracasso. No fim, mitifico a fama do azar para me eximir de toda a responsabilidade.
É preciso ter ombros fortes para carregar o fardo ou apenas a destreza de esquivar-se. Algumas culpas você pode carregar na bolsa, sem se incomodar, mas existem tamanhas culpas que te carregarão pelo resto da vida.
O arrependimento mira a culpa contra nossos travesseiros e impede-nos de dormir. A obssessividade de olhar para o teto será o atalho para adormecer ou apenas uma maneira de prestar atenção enquanto a culpa cresce dentro de si?
A culpa sempre está escondida na dualidade do nosso cotidiano, seja na sombra do fazer ou não fazer ou nas entrelinhas do dizer ou não dizer. Ela está em cada palavra escrita na carta que nunca foi enviada ou que acabou sendo lida.
           Ela está em todo lugar, espalhada pelo chão da sala ou impregnada nas nossas opções. Não posso deixá-la me consumir ao ponto de me culpar por ter culpa. 
Preciso começar a me des-culpar.

Routine

Posted by Eduardo Gomes


Era seis da manha daquele 12 de janeiro, eu estava acordado  (não tenho certeza), desorientado, os olhos ainda não abriam, os pés não me pertenciam.  Apesar de relutar, a força da obrigação do dia me tomou pelos braços e me empurrou porta a dentro do banheiro.
A água açoitava-me as costas violentamente, a realidade chegava aos poucos, e do lado de fora a rotina já batia na porta aos berros para que eu me apressasse. A principio ignorei, e por alguns momentos caí no limbo dos meus pensamentos vãos, e realmente foi em vão.
O relógio no meu pulso esquerdo lembrava quem era meu dono: O tempo. Impiedoso colocava-me no seu tabuleiro de xadrez e pacientemente espero cada movimento. O vapor da minha suspiração conformada embaçava o espelho, as olheiras completavam a máscara da fadiga e anunciavam que estava quase pronto.
Enquanto caminhava para o campo de batalha, deixava minha imaginação na gaveta, minha liberdade na mesa, esquecia a criatividade na cadeira. A medida que me aproximava da porta  enchia meu saco com paciência, polidez, educação, e colocava as mentiras no bolso de trás, e adentrei no front.
Ao final, retornei para casa de bolsos vazios, exausto, entrei no banheiro novamente e me limpei da sujeira. Sentei na cadeira em frente à tela em branco do Word e com as forças que me restavam joguei nela as palavras desse texto. No fim, pensei comigo mesmo: amanhã será outro dia…
Era seis da manha daquele 13 de janeiro, eu estava acordado  (não tenho certeza), desorientado…

Petite

Posted by Eduardo Gomes

Petite

Eu escrevia desesperadamente aflito para encontrar pelo menos um ponto continuativo em minha vida. Havia um ponto-e-vírgula no meio do caminho, quando passei por entre ele: te encontrei. Pensei em começar um novo parágrafo, mas acabei por virar a pagina e comecei a te desenhar com as palavras mais belas que consegui extrair da ponta da caneta.  
Te levei para conhecer as páginas rabiscadas antes de você chegar, passamos por gotas de mágoas que marcavam o papel, por terrenos ásperos aquecidos pela raiva e cheguei no canto da página onde sempre ficava o teu nome.  
Hoje, escrevo lentamente para aproveitar a sua companhia enquanto a caneta segue pelo papel trilhando linhas inexploradas. Olhamos juntos pela janela e vemos a tinta cair a nossa frente contornando nossos desejos (deixando passar alguns deles em branco) e nos dando segurança de passarmos à limpo os nossos sonhos.
Eu sei que não escrevo mais sozinho, sempre sinto o leve acariciar da sua pele na minha mão ao gesticular no papel cada nova palavra, cada nova frase. Todos dedicam seus olhares aos meus textos, descobrem facilmente que é você quem dar sentido a tudo isso: Nilzete Brito. Eu te amo.
Obrigado por ser a fonte de inspiração dos meus textos... e “por acaso”, da minha vida também.

MANQUE

Posted by Eduardo Gomes

Já perdi a conta de quantas vezes já saímos juntos. Percorremos quase todos os corredores dessa vida juntos, você sempre esteve presente. Na minha infância quando não imaginava te conhecer, não sabia que você iria fazer uma diferença tão grande em minha vida, mas hoje sei que não vivo sem você, e nem você consegue partir, pois se partir, o que ficará de mim?
 Você apareceu logo no inicio da minha adolescência ou será que foi um pouco antes? não me recordo mais. Ao passar do tempo você foi ganhando espaço nos meus espaços, seja no quintal de casa, no quarto, na sala, ou apenas abraçados na varanda observando a chuva cair lavando o nosso passado.
O tempo implacável me deixou duro ao mesmo tempo que te deixastes mais bela. Nunca nos separamos, discutimos algumas vezes por decisões passadas ou por escolhas erradas, mas você nunca me abandonastes, mesmo quando que raras vezes desejava que você não existisse.
Não tenho raiva de ti, na verdade me orgulho de você já ter história para contar. Hoje, sei que você vai me acompanhar pelo resto da vida, e tudo de bom e ruim que já me aconteceu e do que esta por vir, você guardará, e me sinto em paz por saber disso.
Você me faz rir, me faz chorar, me faz sentir saudades, faz com que eu me vanglorie das minhas atitudes e me arrependa de algumas delas. O dicionário te define como “o estado melancólico causado pela falta de algo”, discordo completamente, prefiro chamar-te pelo seu nome: Nostalgia.

Voleur

Posted by Eduardo Gomes

Era madrugada, aproximadamente 10 graus. Para quem estava acostumado com temperaturas altas de um sol impiedoso, naquela hora, a minha couraça tão resistente ao calor tornou-se frágil diante daqueles ventos que traziam um frio nórdico insuportável. Estávamos em sete, todos se conheciam há bastante tempo e sabíamos que aquele quinto dia de festa tinha nos levado a exaustão.
Compenetrados, olhávamos o horizonte a procura de uma luz, mais especificamente, a dos faróis do ônibus que nos levaria para casa, estávamos no ponto há mais de 40 minutos, os comentários sobre esses dias de folia esgotaram-se e nenhum veículo havia passado. Os olhos rachados com linhas vermelhas cor de fadiga, misturados a um teor simbólico de álcool anunciavam nossa derrota corporal.
Estava de costas quando as vozes silenciaram-se, depois de um breve intervalo de segundos, os sussurros quase inaudíveis eram verbalizados as pressas, como se conversar fosse inconveniente. Quando tento ficar a par da situação, vi meus companheiros levantarem-se prontamente, como se estivessem atrasados para algum compromisso, os acompanho e percebo que a orientação é deixar o local onde estávamos e atravessar a rua.
Depois de me situar, percebi que os comentários seguiam em direção à silhueta que se movia, até rapidamente, ao local que abandonamos. Ao passar por luzes isoladas de postes, percebi que era um homem com expressões sisudas e roupas surradas, e que não lhe permitiam aparentar menos que 35 anos. Era negro e tinha uma estatura mediana, calçava um chinelo bem desgastado e um short um azul desbotado; a camisa amarelada revela que o tempo também passou por ele, os cabelos despenteados que batiam nos ombros completava o quadro de mais um estereótipo que perambula os confins obscuros da sociedade.
Da mesma maneira de um ser mitológico, ele tornava-se invisível durante o dia, somente algumas pessoas problemáticas desprovidas de indiferença conseguem enxergá-lo pelas ruas. Ao cair da noite, a escuridão lhe dá forma, o medo era a cor que lhe faltava, e agora ele é perceptível e temido pelos olhos apáticos de horas atrás. Momento em pensávamos ter nos afastados do perigo iminente, do outro lado escutamos uma voz romper as sombras:
– “Eu não vou assaltar ninguém! Podem ficar aqui, não sou bandido. Não estou roubando ninguém. Vocês é que são ladrões, vocês é que estão roubando”.
A nossa atenção foi pega de surpresa, todos os sentidos voltaram-se para aquele homem que vociferava palavras à nossa direção. Não ficamos preocupados com o que era dito, mas se ele era capaz de atravessar a margem de segurança e preconceito que estabelecemos. Ele seguiu seu caminho na direção contrária repetindo as mesmas palavras para si, mas que ecoaram na minha cabeça e como crianças brincavam girando num carrossel.
Cessei minha seqüência de passos, não era por causa daquela corrente de ar frio que insistia em afugentar o sangue das extremidades, no entanto, minha consciência me conduziu a um fato aterrador: Aquela atitude conjunta, além de provar que a margem social é intransponível, (ao menos de fora para dentro), me fez notar que nós éramos os verdadeiros ladrões, mas de algo que não poderíamos devolver, negociar ou ressarcir, usurpamos-lhe a dignidade.
          Olhei para trás, e senti o peso da verdade lançada por aquela silhueta sem destino no horizonte. Percebi que o preconceito estava engatilhado entre os meus dedos, e naquela noite, roubei. Senti-me um ladrão.

Passé

Posted by Eduardo Gomes



Um texto que ficou no passado...

A chuva caía enquanto setembro caminhava lentamente para o seu fim. O passo-a-passo de passos descompassados não nos fazem esquecer o passado, mas quem sabe o que ficou para trás deixe de se projetar a minha frente. Mesmo que eu feche os olhos em frente ao espelho, minha dor poderá refletir o vazio que não deixa ninguém entrar. Meus gris dias misturaram-se a minha lânguida alma e me fazem enxergar a felicidade que não posso mais alcançar, e mesmo assim, observo-a como uma peça de teatro, onde os atores fingem a felicidade em risadas, enganam a tristeza com as lagrimas, e imitam a vida. Quanto a mim, continuo na platéia misturando água e sal e tentando ampara-los com as minhas mãos encharcadas do cansaço de tentar viver.
Esperar por alguém que não voltará, talvez não faça sentido, mas me mantém em pé naquela mesma esquina em que te deixei quando você encontrou o seu caminho. Talvez eu tenha que atravessar a rua, mas a esperança morta de te ver voltar me mantém de braços abertos, esperando o dia em que poderei te dizer: sim, tudo ficou bem.

Perdu

Posted by Eduardo Gomes




         Quem não gosta de perder? Perder o horário pelo menos um dia, só para ter a certeza de que é você quem domina o tempo e não contrário; perder o caminho, quando se quer chegar em lugar nenhum, muito menos em casa; perder o juízo faz percebermos que estamos vivos; perder a calma, paciência demais nos mantém presos; perder um amor, só para saber se ele é verdadeiro e se não existe outro melhor; perder para aprender que não podemos perder tanto; perder a piada, e assim mesmo sorrir; um olhar perdido pode esbarrar numa perdição de caminho; perder peso? Hum, talvez, melhor perder a culpa;  perder para ganhar uma nova chance; perder para dar valor? Perder o valor?


        Quando cansar de ganhar, experimente se perder, passar pelo limbo da solidão e encontrar-se diante do espelho e perceber que algo naquele olhar se perdeu.  E, caso, perder-se  para encontrar as respostas não lhe faça sentido. Então você ainda não se perdeu o suficiente para entender as perguntas. 

UN GESTE!

Posted by Eduardo Gomes

      No clímax, os olhos encontram-se fechados, apertados como se não quisessem abrir, uma tonelada pesa sobre eles e os deixam imergidos nesse transi. 
          As mãos, de forma fugaz, percorrem todo o caminho que lhe foi oferecido, como se tivessem a procurar algo. Era uma armadilha, eu estava preso, não podia sair, não queria sair. 
         O calor do corpo misturava-se ao seu perfume e inebriava-me até deixar-me incapaz . Reagi, deixei que minhas palavras sussurradas encontrassem o seu pescoço já com a pele eriçada. 
         Não podíamos fugir um do outros, mas já não lembrava se um dia eu quis sair dali.  E foi assim a primeira vez que te abracei.

Quando se abraça alguém de frente, de peito aberto, os corações ficam de lados opostos, mas por uma fração de tempo eles baterão de forma cadenciada, a um só ritmo, serão apenas um.

La Liberté

Posted by Eduardo Gomes



Há muito tempo pensei que você tinha me abandonado. Não senti suas mãos nos meus ombros quando parei rente ao precipício; onde estava você quando parei de brincar com fogo; por que não me salvaste do inescapável amadurecimento da vida; por que apaticamente observou a rigidez mórbida da rotina debruçar-se sobre mim, acorrentando-me ao tempo e a este papel social que desempenho ferrenha e perfeitamente; por que apenas não me destes um papel em branco? 
A inspiração me abandonou no pretérito perfeito, mas ela voltará em tempos vindouros, e para que ela nunca mais me abandone, criei este blog, onde ela ficará aprisionada nesse meu labirinto particular. Eu precisava sentir, eu precisava me emocionar, e esperarei sentado aqui, no meu prazer de escrever, para que um dia ela volte.
As minhas mãos continuam atadas pelo ciclo eterno das obrigações diárias, mas há algum tempo  perscruto a escuridão  da obviedade e uma brecha se abrirá para que você volte para as minhas mãos e elas possam  sonhar  enquanto percorrem o papel.
Até lá, apesar de não sentir sua presença na platéia, eu estarei pronto, esperando para que  as cortinas  se abram para esse espetáculo que nunca parou.