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VAGUE

Posted by Eduardo Gomes

Alguém, um dia, jurou ser o tempo imbatível.

Foi um dia comum, pelo menos era para ser. Eu estava tão acostumado a ficar nos seus braços, aninhar minha cabeça em seu peito e sentir os problemas e preocupações esvaindo-se daquele afago para fora.  Sua voz acalanta-nos a alma, e nos deixa em paz. Seus olhos expurgava toda a raiva que sentia por algum momento e fazia sentir-me envergonhado por isso.
Ah Luiza, por que fostes embora tão cedo?  Ainda sinto falta das tuas mãos calejadas batendo na minha de brincadeira, só para mostrar suas marcas e orgulhar-se delas, de ter vivido o suficiente para poder me ensinar. Lições que eu nem sempre aprendia nas primeiras aulas, mas que sua paciência me indicava o caminho que precisava percorrer.
As vezes conseguia  seguir seus passos lentos logo as 5h da manhã. Aprendi a acordar cedo e te ver fazer o café  (meu vício particular até hoje) ou debulhar o feijão que estaria servido no almoço depois que eu chegasse da escola.  Nos finais de semana, colocava-lhe Coca-Cola na caneca, as vezes do meu próprio copo.
Luiza, meu amor por você venceu o tempo num jogo de memória infindável. O tempo já não é o mesmo, não conseguiu arrancar-lhe de minhas lembranças.  O esquecimento me fez perder dentro da gaveta a data de sua partida, mas na cabeceira, sob a luz fúnebre do abajur, sempre fica exposta a dor que ficou no lugar da sua ausência.
Sua religião era a minha, sua fé era a minha, mas eu não quis crer quando dizias: “não te verei formado!” ou quando profetizava “ele dará muito orgulho aos pais, pode confiar”. Mesmo assim, sentava diariamente na cama e depois de rezar o Pai Nosso, Ave Maria e Credo, pedia a deus que ela estivesse na primeira cadeira quando eu recebesse o diploma.
Lembro que naquele dia choveu, as 5h da manha você não estava na cozinha. Procurei-te no sofá onde sempre me jogava em teus braços a ninar. Foi como se alguém tivesse te sequestrado. E de fato assim foi, o tempo te roubava no meio da noite, na surdina.
 Teus braços eram mais do que um abrigo, eram meu lar. Queria acreditar que um dia vamos nos encontrar novamente, mas confesso que desde que fostes embora, nunca mais tive pedidos que valessem apena juntar as mãos antes de dormir.
O papel encharcado me lembrou porque nunca conseguia escrever nada sobre você, mas precisava te agradecer por tudo Luiza Vieira Gomes, ou como simplesmente te chamava: vó.

Um dia, jurei ser o meu amor por você inesquecível.

2 comentários:

  1. Mony

    Ow Amigo, que texto liiindo... chorei ao ler pois lembrei da minha vozinha que se foi tbm. Fico impressionada com seu poder de fazer com que o leitor sinta vc falando essas palavras. É assim q eu me sinto quando leio seus textos. Parabéns, amore... Sucesso!

  1. Maria Akemi

    Dudu, que texto lindo.
    Infelizmente, as pessoas têm que partir. E as que partem e não voltam são as que mais sentimos falta.
    O conforto é saber que elas vivem em um lugar melhor.

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