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Cama Nova

Posted by Eduardo Gomes




A cama é como um livro em branco esperando as histórias formarem-se sobre si. Para escrever são precisos (pelo menos) dois corpos e nenhuma borracha. Os capítulos ardentes geralmente precedem os monótonos. As linhas podem seguir seu comum caminho horizontal, virarem-se na vertical, ou até mesmo fazerem um laço.
Pela manhã, as dobras dos lençóis se reajustam, o travesseiro encontra o caminho de volta para a cabeceira, e os pés alinham-se novamente à posição da noite anterior. Quando a luz, finalmente, entra pela janela encontra o cenário impecável, como se a página houvesse sido virada e à espera dos braços e pernas.
 Incautos podem pensar que a cama voltou ao seu estado original, mas as memórias deitam-se indeléveis na memória. As quatro testemunhas permanentes, em seu retângulo imóvel, calam os gemidos abafados, deixam escapar os gritos escancarados e espreitam o suspiro arrefecido pelo calor dos corpos.
O brinco que caiu páginas atrás continua lá como uma leviana sugestão do que acontecera. O lençol leva embora as gotas de vinho, os verdadeiros e os falsos orgasmos. Só para não acumular com os pequenos pedaços de unhas que as costas insistem em arrancar, ou com batom que escapa aos beijos e encontra o edredom.
A cama é confidente e deseja junto. Ela te expulsa por várias madrugas em claro à procura de quem lhe apetece. O vazio por onde seu braço se estende pergunta: onde ela está? Sem um par, o suspiro é gris e vem do pesar por não escrever.

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