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Esconderijo

Posted by Eduardo Gomes



As palavras iam saindo da boca e recheando a mesa com histórias engraçadas e contos mirabolantes. Todas eram saboreadas rapidamente pelos sorrisos fáceis das minhas companhias.

Num movimento quase imperceptível, um vendedor de redes chega ao lado disposto a nos fazer descansar. Recusei o produto que parecia mais tentador depois da refeição.

Aquele senhor tinha a pele calejada pelo árduo trabalho. As cicatrizes naturais do tempo não lhe deixavam aparentar menos de 60 anos. Não tinha o ressentimento de fim de vida que a muitos acompanha. Pelo contrário, o contentamento era singular e sem motivo aparente.

 Antes mesmo do sorriso daquele velho homem esmorecer com a resposta negativa, apontou para minha mão. Absorto, demorei para entender, e então mostrei-lhe a palma.

Num golpe seco como aquela tarde, recebo as palavras ditas pelo velho homem: – ‘Você tem um amor secreto’. Disse ele, como se estivesse a vender um emaranhado de tecidos.

Intrigado, retribui uma face surpresa e recebi o mesmo sorriso indecifrável. Perscrutei a neblina mórbida da minha densa imaginação. Poderia esconder algo de mim mesmo?

Num instante clarividente e antes de embalar os pensamentos, as redes já estavam sendo vendidas na próxima mesa. Eu sabia que era tarde demais.

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